terça-feira, 6 de maio de 2014

A família e seus acúmulos

(Mateus 6:19-21). O mês de maio é propício para dar ênfase ao tema da família. É claro que essa abordagem se faz necessária o tempo todo. Não é tão simples refletir sobre a família, pois, em nosso tempo, de modo geral, a vida é pensada a partir do indivíduo e não a partir do coletivo. Isso significa dizer que o indivíduo tem olhado para todo grupo social, inclusive a família, apenas como um instrumento para lhe servir. Não se trata mais de uma aprendizagem de convivência, onde se desenvolvem afetos, limites. Parece que tem desenvolvido outra configuração. O primeiro referencial de coletividade, de pertencimento, é o lar, a família. O padrão ideal familiar; pai, mãe, filhos, numa relação de afeto e mutualidade, com papéis sociais definidos, tem sofrido transformações. Há o ideal, mas temos que considerar o real, que é muito presente em nossa sociedade. Hoje nós temos mães que criam filhos sozinhas, pais que também exercem essa função, avós que cuidam de netos, pois seus filhos, de forma irresponsável, acabam ‘colocando’ crianças no mundo e simplesmente transferem a responsabilidade aos avós. Algumas pessoas são saudosistas e afirmam: “Antigamente as famílias eram melhores. Não havia divórcios, os filhos eram obedientes.” Diante de afirmações assim, temos que perguntar: Antigamente, mesmo não tendo casos de divórcios, será que os casamentos eram saudáveis e bem sucedidos? Será que as mulheres, que eram totalmente dependentes do marido, eram felizes ou suportavam por não terem outra opção? Será que os filhos eram tão obedientes assim, ou viviam sob opressão? Respeitavam os pais ou tinham medo? Essas perguntas são importantes, mas devemos ter o cuidado de não generalizar as respostas. Voltando ao texto bíblico lido, Jesus fala sobre dois tipos de acúmulos. “Acúmulo de tesouros na terra e acúmulo de tesouros nos céus.” Ele é bem enfático quando afirma: “ Pois onde estiver o seu coração, aí também estará o seu coração.” ( Mt 6:21). Faz um alerta ao perigo de viver em função do acúmulo de riquezas. A única vez que Jesus faz menção, de forma direta, a respeito de outro deus (idolatria) é quando fala do dinheiro ( Mamom) ( Mt 6:24). O viver para acumular acaba fazendo com que as atenções sejam voltadas apenas para isso. A família se torna um meio, isto é, a educação dos filhos visa alcançar dinheiro, o trabalho só tem essa finalidade, a prioridade é essa. Lembro-me certa vez, quando fazia um curso, uma colega perguntou a outra: “ Como vai seu filho?” A resposta foi: “ Ah, ele está bem, o casamento dele está quase acabando, mas ele está ganhando bastante dinheiro, isso é que importa.” Isso retrata bem o significado de acumular riquezas. Sempre alguém perde com isso, pois há feridas perenes, rompimento de relacionamentos, homicídios e roubos. Como uma frase que li recentemente: “As pessoas têm seu valor, algumas têm seu preço”. O dinheiro não é o problema, mas o viver para ele é idolátrico, doentio. Muitas pessoas não têm condições de acumular tanto dinheiro, mas vivem acumulando outras coisas, que não são materiais, mas acabam se “materializando”. Acumulam ressentimentos, ódio, amargura, fardos emocionais, intolerância, medo, culpa, peso. Vivemos hoje um acúmulo de informações e ‘comunicações’. Isso não significa que as pessoas estão ouvindo umas as outras. Há muita informação, mas uma carência de ouvidos, de atenção, inclusive dentro do lar, dentro do mesmo quarto, na mesma cama. Casais que acumularam tantas experiências negativas, que têm muita dificuldade de vivenciar um novo tempo. Há aqueles que não sabem, mas amam viver de autocomiseração.( v.33) “ Se os seus olhos forem maus, todo seu corpo será cheio de trevas.” Felizmente o texto aborda um acúmulo positivo. “ Tesouro nos céus” (Mt 6:20). Importante destacar que o texto não diz “ tesouro para o céu”, mas “tesouro nos céus.” No evangelho de Mateus, não se refere a um lugar, mas a valores. “Céus” (grego ouranos), nesse texto, tem a ver com uma forma de viver, não um lugar. Não podemos entender esse “tesouro nos céus” como se fosse uma espécie de entrada para um financiamento imobiliário para o céu. Vale a leitura do v.22. “ Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz.” Diante disso, a recomendação é para que se acumule valores e atitudes que tem a ver com o Reino de Deus. Perdão, afeto, esperança, respeito, tolerância, oração. É quando, dentro de casa, fica claro as escalas de valores. Pessoas são mais importantes que coisas, a família vale mais que qualquer riqueza. Atenção é mais importante que os resultados. Os limites são compreendidos pela disciplina com amor. A espiritualidade é algo assumido e vivenciado de forma séria, o relacionamento com Deus e com sua palavra têm significado profundo. O comunitário é experimentado e tido como algo de extrema relevância. De qualquer forma,buscamos acúmulos. Obviamente acumulamos aquilo que é mais importante para nós. Cabe uma pergunta: Onde está nosso tesouro? Essa pergunta é importante, pois, segundo Jesus, é lá que estará nosso coração. Pensando na família; o que temos acumulado em nossas relações? Que Deus nos ajude!

terça-feira, 25 de março de 2014

Discernir a voz

“ O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e tenham plenamente.” ( Jo 10:10). Sempre que pensamos em oração, associamos apenas ao falar, pedir algo a Deus. Oração não é monólogo, mas é diálogo, ou seja, falamos, mas também ouvimos, percebemos, entendemos o que o Senhor mostra. Orar tem muito a ver com o que enxergamos e ouvimos, com o que nos direciona. Por uma questão de regra básica de interpretação de texto, um versículo não deve ser interpretado isoladamente, pois faz parte de todo um contexto histórico e cultural. Está inserido dentro de uma realidade a qual não podemos ignorar. O contexto do versículo lido começa no capítulo 9, onde aborda relato da cura de um cego de nascença e todas as conseqüências desse ato. Havia muitas crenças por trás da cegueira de nascença. Muitos acreditavam que a cegueira era um castigo de Deus, inclusive alguns discípulos de Jesus acreditavam nisso (9:1,2). Havia também compreensão por parte de alguns que somente o Messias poderia curar um cego de nascença. Jesus cura um cego de nascença, que além de cego era mendigo. Aliás, não teria outra opção a não ser mendigar, não havia nenhuma ajuda do Estado, não havia inclusão social, nem vagas para deficientes no mercado. Essa cura aconteceu no Sábado. Isso provoca um problema sério entre os fariseus. Curar um cego de nascença no Sábado. Com certeza algumas perguntas surgiram, inclusive algumas relatadas no texto. “ Quem o curou?” “Como pode curar no Sábado?” “ Como pode acontecer algo assim sem que passe por nós que zelamos da lei?” “Estamos perdendo o controle da situação?” Em nenhum momento se alegraram com a cura daquele homem! Apenas se preocuparam em esclarecer os fatos e não perderem o controle da situação. Jesus então diz “ Eu vim a este mundo para julgamento, a fim de que os cegos vejam e os que vêem se tornem cegos.” ( 9:39). Ele estava afirmando que quem acha que enxerga se torna cego diante da vida, da graça, mas quem é cego vai ver a graça, o amor de Deus. Após isso ele continua, usando metáforas do pastoreio no capítulo 10. Os fariseus não gostavam de pastores, mas Jesus usa essa linguagem. Ovelhas, pastor, porta, aprisco, ladrão. Jesus se denomina ‘porta’ e ‘pastor’. O pastor conhece as ovelhas e as ovelhas conhecem sua voz o segue. (10:4,16). Ele afirma: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e tenham plenamente.” ( Jo 10:10). Diante disso; quem é o ladrão? De acordo com o texto, o ladrão são os fariseus que se recusavam a aceitar a ação de Deus na vida daquele homem e também se recusavam a tratar as pessoas com dignidade, respeito e amor ( 10:1) ...”quem sobe por outro lugar, que não a porta, é ladrão e assaltante.” Quem não entra pela porta é ladrão. Quem não age de acordo com Jesus, que não cuida das pessoas como ele, mas quer controlá-las, manipulá-las, esse é ladrão. O ladrão não respeita sentimentos, não respeita a dignidade, nem o sofrimento, só pensa em si. O sistema religioso nos dias de Jesus estava corrompido, usava as pessoas, explorava. Jesus não está falando do Diabo, mas de pessoas. Hoje, quem seria o ladrão? Aquele que não ama a família, mas rouba a esperança, mata de tristeza e destrói a alegria dentro de casa. O marido e a mulher que não se respeitam. É o patrão que explora o empregado, o empregado que engana o patrão. O Estado que não cuida dos mais pobres, negligenciando os cuidados básicos. Permite que pessoas morram sem cuidado médico nos corredores dos hospitais públicos, que cobra tantos impostos mas não se importa com as pessoas. Não pune os poderosos que cometem crimes, corruptos e corruptores. Ladrão também é o que usa de violência de todo tipo, é o intolerante com o que é diferente de seu modo de ver. É o que usa o nome de Deus para enganar as pessoas. O ladrão não se importa com a dor dos outros, não se importa em ferir, mesmo em nome de uma “verdade” que tanto defende. Fere com zelo, mas nunca ama com graça. Outra pergunta a ser pensada: O que é ter vida plena ou em abundância? É ser guiado pelo Bom pastor. Uma vida justa, liberta e em paz. É a convicção da aceitação de Deus para uma vida eterna. Uma vida transformada, com novos valores, com entendimento espiritual, marcada pela graça e amor de Deus. Uma vida que se alegra na comunhão, que reconhece o agir e direção de Deus. Uma vida que se sente amada, tratada com respeito, que também aprende com Jesus o valor da vida. Não mendiga vida, mas a vive com abundância, mesmo em meio aos problemas, pois vive numa relação com o autor da vida, compreende as limitações e dores dos outros, não acusa, mas ama a justiça. Vivemos um tempo de muitas vozes: - A pressão pelo sucesso a todo custo. - O prazer a todo custo ( hedonismo). - O poder a todo custo. ( violência, engano). Gente de oração aprende a ouvir a voz do Bom pastor e segui-lo. Não fica pensando só em si e em seus problemas. Tem discernimento das vozes, sabe reconhecer o ladrão e não se amoldar a ele. O difícil na oração não é falar, mas ouvir e se direcionar pela voz do que disse: “Eu vim para que tenham vida e a tenham plenamente.” Que Deus nos ajude!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O Pão Nosso de cada dia nos dá HOJE

“O pão nosso de cada dia nos dá hoje” ( Mateus 6:11). Certa vez Leonardo Boff afirmou que não há “Pai nosso” sem “Pão nosso”. Sua afirmação tem todo sentido. O pão é o sustento, a comida na mesa. Não creio que se trata de algo metafórico, mas concreto. Nos dias de Jesus a culinária não era vasta, o comum era pão, peixe e vinho; para os que tinham! É muito comum o Evangelho de Mateus nos remeter ao Livro do Êxodo. O pão traz à memória o ‘maná’ do deserto ( Êx 16). Era dado por Deus diariamente e deveria ser comido no dia, sem desperdício e sem acumular para o dia seguinte. Com exceção do sexto dia, onde era necessário “colher” a parte do sétimo dia também. O ‘Maná’ era o viver diário, o viver o hoje. Viver o hoje é um grande desafio para todos nós. Parece que nossa mente e coração sempre nos remetem ao futuro; contas a vencer, futuro dos filhos, financiamento, faculdade etc. Tudo é muito rápido, a velocidade é cibernética. Há também os saudosistas, que não pensam tanto no futuro, mas vivem do passado! Milton Schwantes ao mencionar o “pão nosso de cada dia”, destaca que quem tem fome não pensa no futuro, quer viver o presente, quer o agora. O estômago não vive vislumbrando o futuro, nem contemplando o passado, ele precisa ser atendido hoje. Também não vive para acumular! Se nossa mente e coração insistem em não viver o hoje, nosso estômago nos lembra que o hoje é tudo o que temos. O pão nos iguala! Temos essa necessidade, independentemente da classe social, nível intelectual ou cultural. Diante do pão, da mesa, do comer, percebemos a simplicidade que é tão esquecida. O comer, parar, sentar, o viver os relacionamentos ao redor da mesa, a dignidade humana. Menos correria mais reino de Deus, menos stress mais vida! Caímos na real que não somos máquinas. “O pão nosso de cada dia” também é fruto de amor e justiça, é um apelo profético. O mundo teme a escassez de alimento, afinal somos hoje sete bilhões de habitantes no planeta. O problema não é simplesmente a escassez de alimento, é a escassez da partilha, da misericórdia, da justiça, do amor. Onde boa parte dos grãos produzidos no Brasil é utilizada para alimentar gado na Europa e em alguns países asiáticos. Onde o desperdício de comida é gritante e muitos ainda passam fome. Pão e oração tem tudo a ver. Gente de oração tem consciência de sua dependência de Deus, ama a justiça, a partilha e busca aprender a viver o hoje, sem mediocridade, nem negligência com planejamento para o futuro, mas com simplicidade, com humanidade!

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

“Tu és o Deus que me vê”

Hagar era estrangeira (egípcia) e escrava de Sarai (esposa de Abrão). Uma ‘tríade’ bastante excludente - mulher, escrava e estrangeira – num sistema patriarcal. Acaba envolvida em uma situação de frustração de sua senhora com a cumplicidade de seu senhor. Sarai não podia ter filhos e propõe a Abrão que tenha um filho com Hagar. Esse, por sua vez, aprova a ideia, afinal, deitar-se com Hagar, jovem e bonita, não seria para ele uma má ideia! Ou talvez ele pensasse que isso seria uma forma de apaziguar o coração de sua mulher. Vale lembrar que ele havia recebido a promessa do Senhor de que seria pai de uma grande descendência. Hagar acaba ficando grávida de Abrão, e a partir de então sua vida se torna muito difícil! Passa a ter sérios conflitos com sua senhora, talvez por ciúmes, afinal, agora a jovem seria mãe e ela não. O texto bíblico diz que “Sarai tanto maltratou Hagar que esta acabou fugindo” ( Gn 16:6). Em meio à frustração de Sarai e a omissão de Abrão, Hagar é que sofre as consequências. Afinal, a corda arrebenta sempre para o lado mais fraco! Ela, em desespero, foge para o deserto. O que uma mulher grávida, humilhada, oprimida e sozinha poderia esperar no deserto? Talvez a morte, ou quem sabe a possibilidade de encontrar ajuda. Mas ela tem uma experiência profunda com Deus. Aquilo que em religião é chamado de epifania (manifestação de Deus). Recebe o consolo, o encorajamento. Uma escrava agora recebe o conforto divino. Hagar é primeira mulher na Bíblia a viver essa experiência. “Este foi o nome que ela deu ao Senhor que lhe havia falado: “Tu és o Deus que me vê.” ( Gn 16:13). Ela volta para a casa de sua senhora. O tempo passa, seu filho ( Ismael) nasce. Mas a história volta a repetir-se. O pesadelo volta! Dessa vez ela é expulsa de casa com seu filho. Ela e o menino no deserto. “Quando acabou a água da vasilha, ela deixou o menino debaixo de um arbusto e foi sentar-se perto dali, à distância de um tiro de flecha, porque pensou: “não posso ver o menino morrer.” Sentada ali perto, começou a chorar.’ (Gn 21:15,16). Fico imaginando a cena: uma mãe se afasta do filho para não vê-lo morrer de sede no calor escaldante do deserto. Mais uma vez o Senhor se revela a ela e a socorre, juntamente com seu filho. Mais uma vez o “Deus que me vê”, visita Hagar. O Deus que vê o que está no mais profundo do ser. Que vê os medos, dúvidas, incertezas, solidão, que vê a humilhação enfrentada, que vê a dor, que vê a vontade de viver com dignidade. O “Deus que me vê” e que está ao lado. Que compreende o que ninguém compreende. Hagar é uma das pessoas da Bíblia menos compreendidas, afinal, ela foi apenas uma “aventura” na vida de um casal, apenas uma escrava estrangeira. É vítima de pessoas que seguem a Deus, mas que não conseguem lidar com as próprias frustrações, ansiedade e insensibilidade, apesar de bem intencionados. Abrão, homem que Deus chama para uma missão especial e Sarai, sua esposa. Entre opressores e vítima, o que se vê é a dura tentativa de ajustar as coisas depois que elas estão feitas. Depois que as decisões são tomadas, principalmente quando se quer assumir o controle, mas sem a direção de Deus. O que se tem é sofrimento, feridas e muito choro. Felizmente, Deus é maior que isso tudo. Deus é maior que a cultura patriarcal, se revela a uma mulher, escrava e estrangeira. Deus é maior que as incoerências humanas, que os erros de quem não poderia errar. Felizmente, Deus é o Deus que vê! Que caminha no deserto, em meio às lágrimas de uma mãe, a fragilidade de uma criança, e a esperança de um recomeço!

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Compaixão X Incômodo

Quando Jesus saiu do barco e viu uma grande multidão, teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Então começou a ensinar-lhes muitas coisas. Já era tarde e, por isso, os seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Este é um lugar deserto, e já é tarde. Manda embora o povo para que possa ir aos campos e povoados vizinhos comprar algo para comer”. Ele, porém, respondeu: “Deem-lhes vocês algo para comer!” ( Marcos 6:34-37 – NVI). O Evangelho de Marcos constantemente destaca a compaixão de Jesus. A forma como ele olha as pessoas, a situação que elas vivem, aquilo que elas buscam. A grande maioria dessas pessoas era tida como impura pelos líderes religiosos, que seguiam o chamado ‘código da pureza’, um código que impunha uma forma de vida baseada em cerimonialismo e exigências que só eles ( líderes religiosos) “conseguiam” cumprir. A maior parte das pessoas era de gente pobre, enfermos, mulheres, crianças, homens sem trabalho, sem a aprovação desse código. Ali provavelmente havia mulheres que foram violentadas, estupradas, talvez idosos, pessoas que só queriam viver com dignidade. Além disso, o jugo do império romano piorava ainda mais a situação. Obviamente quando essas pessoas ficaram sabendo de um certo galileu, um nazareno que estava curando, libertando, ensinando algo novo, uma mensagem de esperança; elas iriam atrás dele, seja onde for! Talvez alguns tinham apenas um desejo pessoal, outros acreditavam na possiblidade de ter de volta a liberdade e a conquista da terra, um novo reino davídico. Alguns outros queriam apenas condições de dar uma vida melhor à suas famílias. O fato é que quando Jesus viu a grande multidão, ele teve compaixão. Os discípulos tiveram outro olhar. Eles viram que o lugar era deserto e que já era tarde. Propuseram a Jesus que mandasse as pessoas embora, assim comprariam algo para comer. A impressão é que eles queriam se livrar do problema, sabiam que não tinham como comprar, nem onde. Quem sabe eles sentiram-se impotentes diante de tanta gente com fome em um lugar árido. Jesus, então, confrontou seus discípulos dizendo-lhes que dessem a multidão algo para comer e não a dispensasse como haviam proposto. Não seria novidade dispensar, afinal, o quotidiano do povo era ser dispensado. Aquelas pessoas eram dispensáveis para o poder religioso e para Roma. Para os discípulos era um incômodo. Eles estavam numa situação difícil! Jesus realiza o chamado milagre da multiplicação dos pães. A discussão não está no milagre em si, mas na dignidade que Ele dá a essas pessoas, a compaixão que toma o coração de Jesus. O difícil não é fazer uma análise da situação, do abandono do sistema, da exclusão social, das necessidades gritantes. O difícil é a compaixão estar no coração, como esteve em Jesus. O difícil é não se acostumar com a maldade, com a indignidade na vida das famílias, com a violência. Os religiosos viram pessoas impuras, os romanos viram um 'bando' de miseráveis, os discípulos viram um incômodo, mas Jesus viu pessoas, perdidas, sem rumo, buscando algo, buscando vida. Jesus não mudou o sistema, mas ensinou compaixão, ensinou que o Reino de Deus resgata a dignidade humana, apresentando uma vida de esperança e aceitação de Deus, de um Deus que não está ‘preocupado’ com os cerimoniais de pureza, mas com a transformação de vida dos fracos, indefesos e perdidos. Uma outra lógica, um outro olhar.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A tentação do Controle Absoluto

“Então o Diabo o levou a cidade santa, colocou-o na parte mais alta do templo e lhe disse:” Se és Filho de Deus, joga-te daqui para baixo. Pois está escrito: “ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, e com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra.” Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus.”( Mateus 4:5-7). Jesus é colocado na cidade santa, na parte mais alta do templo e é confrontado com as escrituras. Uma tríade sagrada para o judaísmo: Jerusalém, templo e escrituras. A citação das escrituras é feita de forma manipuladora, afinal, quem se joga não tropeça, cai. Só pode tropeçar quem caminha, quem está se movendo, quem está em direção à algum lugar. Quem se joga não olha para frente, apenas para baixo. A tentação é a seguinte: ‘Olha Jesus, você tem o sagrado a seu favor, então você pode controlar tudo, faça o que quiser que Deus estará à sua disposição.’ Por mais absurdo que pareça, é a tentação de controlar Deus. É a tentação de um controle absoluto. Controlar Deus, a verdade, as pessoas, a vida. Isso se dá de várias maneiras. Quando pais controlam todas as decisões dos filhos. Da mesma forma, quando os filhos controlam as ações dos pais e esses vivem apenas em função deles. Quando líderes tentam controlar a consciência das pessoas, quando o fundamentalismo quer controlar a verdade, quando homens e mulheres querem fazer Deus “funcionar.” Não se trata apenas de uma tentação de Jesus, mas de todos nós. Há algumas coisas na vida que podem ser controladas, por exemplo: finanças, peso, agenda etc. O problema é querer controlar aquilo que não é possível, que foge do limite da força. Quando a pessoa acredita que tem que estar no controle absoluto da situação, quando tudo tem que girar a seu favor. Como lidar com isso? Quem sabe começando a compreender que Deus não é controlável, nem tampouco controla como um dono, mas como alguém que caminha ao lado, que ensina a viver. Pode ser uma grande angústia saber que não controlamos tudo, que a vida não está totalmente sob nosso controle. Que ainda não vencemos todos os temores, que estamos sujeitos a enfermidades, que temos dúvidas, que a dor às vezes nos cerca. Daí a grande oportunidade de pararmos de achar que só viveremos bem se tudo estiver em nosso controle. Também a possibilidade de descansarmos na graça de Jesus e confiarmos no seu amor. A tentativa de ter o controle absoluto da vida nada mais é que desconfiar Daquele que nos convida a andar em sua dependência. Que Deus nos ajude!

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O mágico/imediato. A tentação do imediatismo.

Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo. Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome. O tentador aproximou-se dele e disse: “Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.” Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.’ ( Mateus 4:3,4). Após o batismo, Jesus é conduzido ao deserto pelo Espírito. O deserto, segundo alguns místicos orientais, retrata a condição humana. Lugar extremamente quente durante o dia, mas bastante frio à noite. Um lugar de contrastes. Beleza e solidão, silêncio e inquietação, imensidão e finitude. Outro relato bíblico que apresenta a tentação está no Gênesis. Adão é tentado no Éden, no paraíso. Não falta nada, tudo está em equilíbrio. Éden e deserto são ambientes diferentes, mas o que há em comum é a tentação. Adão e Jesus, pessoas diferentes, mas com o mesmo conflito. Geralmente quando se pensa em tentação, as pessoas, principalmente as mais moralistas, associam com questões sexuais. É obvio que se trata de algo muito mais complexo. A tentação é um convite à divinização do EGO. A primeira tentação a Jesus no deserto foi: “ Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.” ( Mt 4:3). É como se o Diabo dissesse: “ Se és, então prova.” “Faz uma mágica aí! ” “ Dê um jeitinho.” “ Não perca tempo”. É a tentação pelo mágico, pelo imediato. O imediatismo é a tirania da pressa, o reducionismo da vida. Concentram-se todos os esforços, pensamentos, sentimentos e vontade à apenas um momento. Jesus responde: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.” ( Mt 4:4). Jesus não está ignorando a necessidade do pão, do comer, afinal quem tem fome quer comer. O que ele destaca é que não só de pão, daquilo que atende só a uma necessidade, mas de algo que vai além, que atenda a existência, o ser, a vida. Que oferece sentido e direção. Isso é uma construção, não é encontrado com ‘mágica’, mas num relacionamento com Deus. Essa palavra que procede da boca de Deus deve ser ouvida, percebida, não apenas com os ouvidos, mas com o espírito. Para ouvir é preciso parar, prestar atenção, estar sensível. Não importa o ambiente, paraíso ou deserto, afinal, o problema não é necessariamente o ambiente, mas a tentação. Talvez para alguns o tentador seja o foco, eu prefiro pensar em como o (a) tentado (a) lida com a tentação. Se se concentra no mágico/ imediato (imediatismo) ou se busca perceber Deus na caminhada, não apenas no momento, mas no processo. O processo, para Deus, parece ser mais importante que o fim. Os resultados atraem, mas podem impedir de perceber o que acontece no caminho. No caminho se faz amigos, há sonhos, aprendizagem, descobertas, risos com os filhos, celebração, choro. É nesse caminho que se vive da palavra de Deus. O mágico imediato entende Deus apenas como uma solução para seus problemas. Quem vive da palavra de Deus entende Deus como alguém que se relaciona, que entende os dilemas e inquietações mais profundas e oferece sentido e direção, numa dimensão de amor. O mágico/imediato (imediatismo) é a “maquinificação” da vida e da fé, a busca do pronto, do acabado. Realmente é uma grande tentação, mas, como pediu Jesus, na oração do Pai nosso: “Não nos deixe cair em tentação.”

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Mostra-nos o PAI

Disse Filipe: “Senhor Mostra-nos o Pai, e isso nos basta”. Jesus respondeu: “Você não me conhece, Filipe, mesmo depois de eu ter estado com vocês durante tanto tempo? Quem me vê, vê o Pai, como você pode dizer: ’Mostra-nos o Pai? ( Jo 14:9). Fico pensando como deve ter sido frustrante para Jesus ouvir esse pedido de Filipe. Afinal, estavam caminhando juntos, dia e noite, há pelo menos três anos. A expressão “mostra-nos o Pai!” indica que não perceberam o Pai em e com Jesus. Jesus então afirma: “Quem me vê, vê o Pai.” É como se ele dissesse: ‘o que eu faço expressa o Pai’, ‘a forma como eu vivo com vocês revela o Pai’. De forma objetiva, O Pai é visto, no evangelho de João, em todas as obras de Jesus e em seu relacionamento com as pessoas. No inicio do evangelho, quando o Verbo se faz gente, no testemunho de João Batista, no diálogo com Natanael, onde este é elogiado por Jesus quando estava debaixo de uma figueira e não acreditava que alguma coisa boa viria da Galiléia. Não podemos nos esquecer da alegria na festa do casamento em Caná, do encontro com Nicodemos, líder religioso cheio de conflitos e crises interiores. Na passagem de Jesus em Samaria, lugar onde culturalmente não poderia estar, conversando com uma mulher que não deveria conversar. Esta mulher ouve Jesus dizer que o Pai está à procura de verdadeiros adoradores. É, o Pai está com Jesus na festa se alegrando com os noivos, no comissionamento aos discípulos imperfeitos, no diálogo com um líder religioso marcado pela dúvida, na ruptura com as barreiras étnicas, geográficas, culturais, religiosas e de gênero, que havia entre Israel e Samaria. Não para por aí! O Pai está com Jesus no tanque de Betesda. Enquanto a maioria se dirige para a festa do tabernáculo, Jesus se dirige para o lugar de sofrimento humano, de dor, de busca de esperança. O Pai está com Jesus na partilha dos pães, onde o significado da partilha dos cinco pães e dois peixes é maior que o próprio milagre. O Pai está com Jesus quando alguns religiosos apresentam uma mulher pega em adultério e exigem que se aplique a Lei, ou seja, o apedrejamento. Jesus, então, de forma sábia, desmascara toda hipocrisia daqueles homens e perdoa aquela mulher em situação de profunda miséria emocional e existencial. É possível ainda ver Jesus curando um cego de nascença, confrontando a compreensão de muitos que acreditavam que se alguém nascesse cego é porque era vontade de Deus, ou, até mesmo um castigo. O Pai de Jesus não é assim! Ele mostra que a pior cegueira é aquela que não vê e nem se compadece do sofrimento humano. Que dizer então do choro de Jesus diante da morte do amigo Lázaro, da dor do luto. Ou então, como pensar no Pai, quando Jesus lava os pés dos discípulos, demonstrando claramente que o poder está no servir, não no mandar ou no oprimir. Como pensar no sofrimento de Jesus, na cruz, na angústia da morte. É, a fala de Filipe é de quem ainda não tinha compreendido que o Pai é visto no amor, na compaixão, na alegria, na justiça. O Pai é visto na caminhada com Jesus, em seu discipulado que se dá a partir da vida, do relacionamento pessoal e comunitário. O Pai é percebido na concretude da vida, com pessoas que tem dúvidas, conflitos, são imperfeitas, choram e sofrem, mas também se alegram e celebram a vida. Pessoas que erram e buscam acertar, querem ter esperança e paz. Talvez por isso Filipe não visse o Pai. Tenho a impressão que, para muitos, o Pai só pode ser visto no sucesso, nas “melhores” pessoas, nas grandes conquistas, naqueles que sempre têm razão, nas programações midiáticas, na “unção” especial de alguma celebridade gospel, nos milagres que “só” são “vistos” apenas em algumas “igrejas especiais” ou até mesmo na tradição, no dogma. Definitivamente, o Pai apresentado por Jesus se importa com as pessoas e as convida a caminhar como discípulos de seu Filho. Que sejam restauradas, amadas, que se amem, sejam fraternas e vençam as barreiras que as cercam, não com um triunfalismo barato, mas com a fé em um Pai que compreende a condição humana e convive com ela.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Aqui está o que é maior

Aqui está o que é maior que o templo.... Pois o Filho do Homem é Senhor do Sábado" ( Mt 12:6,9) Jesus está com seus discípulos numa lavoura. Eles têm fome e colhem espigas para comê-las. Em razão disso, alguns fariseus os questionam, afinal era Sábado. Jesus, então, lhes responde, valorizando a vida, colocando-a acima da própria compreensão farisaica do sagrado. Havia ali dois elementos tidos como sagrados: O Templo (espaço) e o Sábado (tempo). A compreensão de fé era limitada ao espaço e tempo, algo estático e determinante, legislador e fiscalizador. É verdade que tudo o que fazemos está limitado ao espaço e ao tempo, afinal, somos finitos e temporários, habitamos em um lugar por certo tempo; vivemos e morremos. Entretanto, a fé está justamente em transcender o espaço e o tempo, em nos levar a uma caminhada que está além da própria morte. Jesus apresenta o Reino de Deus, como U-TOPOS ( não lugar), como algo não limitado ao espaço e tempo, que vai sendo percebido numa caminhada - caminhada comunitária, não solitária - que está para além do tempo, para além daquilo que é visível. É percebido quando o se alimentar é mais importante que a frieza da norma (Mt12:1), quando a dor do outro é percebida e este respeitado ( Mt 12:13), quando a misericórdia é mais importante que os sacrifícios ( Mt12:7). Os fariseus enxergavam nas pessoas apenas normas, o que era e o que não era permitido. Aquilo que seria capaz de controlar, de colocar em ordem. Da mesma forma os fundamentalismos atuais se propõem a controlar e colocar em “ordem”. O fundamentalismo religioso se preocupa com dogmas, o científico enxerga a vida apenas como um elemento biológico, genético; o político - econômico com sua frieza, vê a vida apenas como possibilidade de manter estabilidade financeira, de mercado. O “sobrenaturalismo” religioso vê nas pessoas apenas meio para espetáculos. Jesus enxerga “gente” nas pessoas. Gente que se cansa, trabalha, sofre, mas que busca paz, alívio, busca vida, busca Deus. Os sinais de Jesus ensinam sobre esperança, misericórdia, alegria, libertação, nova vida. Daí sua fala “Aqui está o que é maior que o templo... Pois o Filho do Homem é Senhor do Sábado” ( Mt 12:6,9). O Reino de Deus é o ponto de partida e o ponto de chegada. Aqui realmente está o que é maior!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Espiritualidade em Dostoievski

Arte Editorial Lançamento: Espiritualidade em Dostoievski
A teologia não é propriedade de instituições religiosas, tampouco se limita a academia. Ela é e se faz na vida, na cultura, na comunidade, na trajetória de pessoas que indagam, sofrem, sentem, esperam e convivem com as “malditas questões humanas”. A literatura é um elemento importantíssimo de e para a reflexão teológica. As narrativas bíblicas, por exemplo, antes mesmo de textos sagrados, são literatura. No Oriente a teologia em geral é vista sobre outra perspectiva. O pensamento teológico ortodoxo é místico e não se desenvolve a partir de conceitos. A principal chave de leitura é a experiência religiosa, muito embora isso não signifique uma negação de sistematização teológica. A literatura é capaz de “incorporar a diversidade e a multiplicidade da vida”. Ela constrói sentido. A narrativa e a poesia conseguem expressar o que a lógica ou a ciência jamais conseguirão, pois transcendem o conceito. É possível, então, pensar teologia dessa forma. Esta obra, portanto, pretende aproximar a literatura russa de Dostoievski à teologia. As obras de Dostoievski pontuam elementos teológicos importantes, que são, inclusive, correspondentes à teologia latino-americana. Embora haja a percepção da expressiva presença do trágico em Dostoievski, em que constantemente a angústia, a culpa, o sofrimento, a fatalidade, os questionamentos inquietantes se manifestam, isto não significa a negação da possibilidade de uma construção de vida, mesmo em detrimento dessa contingência. Dostoievski lida como o trágico, mas também com o belo. É como se Deus e o Diabo travassem uma batalha no coração do homem, parafraseando o próprio Dostoievski. É nessa direção que trilha a obra, no diálogo entre a literatura de Dostoievski e o pensamento teológico latino-americano, em especial com o pensamento teológico de Juan Luis Segundo e José Comblin. E nesse sentido não é negado o trágico, mas enfatizado no diálogo proposto a construção de vida apesar do trágico, construção essa que se dá na liberdade e no amor. 156p., 14x21cm, R$ 29,00 (+ frete) AC - EDITORA SAC - Arte Editorial - Livros que ensinam Tel: (11) 3923-0009 Fax: (11) 3923-0009 Email: editora@arteeditorial.com.br Website: www.arteeditorial.com.br Claudinei Paulino é casado com Bernadete, com quem tem dois filhos, Abner e Claudinei Junior. É Pastor da Segunda Igreja Batista de Jacupiranga-SP, Mestre em Ciências da Religião pela UMESP, Licenciado em Filosofia pela UNIMES, Licenciado em Pedagogia (FUNEC/Fisa) e Bacharel em Teologia pelo Seminário Betânia (SEMIB).

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Do Profeta Malaquias a Zygmunt Bauman: os mesmos dilemas.

Mas para vocês que reverenciam o meu nome, o sol da justiça se levantará trazendo cura em suas asas. E vocês sairão e saltarão como bezerros soltos no curral /.../ Ele fará com que os corações dos pais se voltem para seus filhos, e os corações dos filhos para seus pais; do contrário, eu virei e castigarei a terra com maldição. (Malaquias 4:2,6 - NVI) O Antigo Testamento termina com o livro de Malaquias. Acredito que isso não tenha tanta importância para as pessoas, talvez haja até uma curiosidade cronológica ou algo assim. Mas a forma como conclui chama a atenção. Ele fala de ‘coração de pais voltados para o coração dos filhos e de coração de filhos voltados para o coração dos pais’. As traduções bíblicas mais clássicas trazem a palavra ‘converter o coração dos pais ao coração dos filhos e o coração dos filhos ao coração dos pais’. Não se trata apenas de pais e filhos biológicos, mas também de gerações que precisam se converter umas as outras. A conversão, portanto, não diz respeito apenas a mudança de coração em relação a Deus, mas também uma mudança de coração nas relações familiares, comunitárias e humanas. Corações que estão distantes e que precisam se aproximar. Voltar o coração é muito mais difícil que rever ideias. Pessoas podem caminhar juntas com os mesmos ideais ou com acordos políticos, mas não podem construir laços profundos de vida sem que os corações se voltem para si. Há família que mora na mesma casa, mas a casa não é necessariamente um lar. Respeita-se as funções, se abrigam no mesmo teto, mas os corações podem estar distantes. Há cônjuges que compartilham da mesma cama, mas vivem em mundos diferentes. Corações convertidos uns aos outros transforma indivíduos em pessoas. É importante entender, que o coração, para a Bíblia, em especial o Antigo testamento, não se refere apenas aos sentimentos, mas à vida numa dimensão mais profunda, interiorizada. Converter o coração é, portanto, converter a vida profundamente, com suas alegrias, tristezas, virtudes, anseios, fragilidades, medos, limitações, angústias, beleza, defeitos. É voltar nossa humanidade para a humanidade do outro. Talvez até haja uma abertura para o coração do outro voltar-se para o nosso coração, desde que haja apenas alegria, sorrisos, virtudes. O problema é aceitar junto o erro, a imperfeição, a fragilidade, as incoerências. É, eu sei que é difícil! Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, escreve alguns livros com títulos bastante interessantes: ‘Modernidade Líquida’, ‘Amor Líquido’, ‘Medo líquido’, ‘Tempos líquidos’ e outros. Todos esses títulos trabalham a liquidez que nosso tempo vive, ou seja, aquilo que era sólido há algumas décadas ou séculos, como a própria família, hoje sofre uma liquidez. Por líquido, ele entende como algo não permanente, sem uma estrutura sólida, segura, algo sem vínculos permanentes, sem compromissos duradouros. Assim é o tempo em que vivemos, onde as pessoas preferem viver sem solidez, se ‘individualizarem’, se ‘virtualizarem’, dedicarem tempo apenas ao que é útil e prazeroso. No Século 20, muitas pessoas experimentaram relações mecânicas, afinal o modelo era industrial. Hoje, as relações são virtuais, as redes sociais direcionam. Um mundo “espiritual” tecnológico, onde somos “perfeitos”, “justos” e “verdadeiros”, ‘compartilhamos’ e ‘curtimos’ o ‘céu’ digital. Malaquias não experimentou a indústria nem a internet, mas vivenciou o mesmo problema que sofremos hoje: a necessidade de corações voltados para outros corações, dos pais aos filhos e dos filhos aos pais. O que consola é a esperança da graça. “Mas para vocês que reverenciam o meu nome, o sol da justiça se levantará trazendo cura em suas asas. E vocês sairão e saltarão como bezerros soltos no curral.” (Ml 4:2). As expressões apresentadas são belíssimas. Sol da justiça, cujas asas trazem cura, saltar como bezerros soltos do curral. Expressões de uma cultura rural, de um mundo antigo. O sol brilha, as asas protegem, ou seja, a cura pela proteção das asas, do cuidado, do descanso daquele que ama a justiça. O cuidado de Iavé (Deus), que nos liberta, nos faz ver a beleza da vida, como um bezerro solto do curral. Num mundo marcado por tanta superficialidade, onde as instituições perderam sua relevância, onde nem mesmo a família tem o mesmo significado, oro para que o sol da justiça traga cura, que sejamos livres e que nosso coração nunca se recuse a voltar-se para o coração do outro.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Quem é o ladrão?

O ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente ( Jo 10:10). Quem lê esse texto e interpreta-o apenas sob a perspectiva do senso comum chega a uma conclusão bem simplista: O ladrão é o Diabo. Mas, se a leitura for levada um pouco mais a sério, percebendo a quem Jesus dirige essas palavras, sobre quem ele está falando, não fica difícil compreender que não está se referindo ao Diabo. Para muitos, talvez isso seja uma decepção, afinal, gostam de falar do Diabo. Lamento, mas Jesus está apontando outro ladrão. Momentos antes, Ele havia curado um cego de nascença e isso provocara a ira, a inveja e a sagacidade de alguns fariseus. Para eles o cego era cego porque Deus o estava castigando, assim também pensavam os discípulos de Jesus (Jo 9:2). Os fariseus não admitiam a cura, pois Jesus era, segundo eles, um pecador que não guardava o Sábado. (Jo 9:16). A vida do cego, a alegria da cura, a visão restaurada nada significava para eles, pois a única coisa que importava era que o sistema do qual “zelavam” fosse mantido. Um sistema que conservava os ritos, os decretos, a tradição, o status religioso, a vaidade, as manipulações. A vida não importava tanto, ainda mais de um cego de nascença, que no imaginário popular, estava pagando algum pecado. Esse tipo de compreensão mata, rouba e destrói. Mata aos poucos, lentamente, cruelmente. Rouba a dignidade humana, pois não há o respeito pela dor, pelos sentimentos, pela história. Destrói a esperança, pois a visão é fatalista, não é possível mudar, é assim que tem que ser. Destroem os ânimos, a coragem, os sonhos. O ladrão é assim, o que importa é conseguir o que quer. Ainda bem que o texto não termina no ladrão, mas conclui com as palavras de Jesus: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente.” Jesus era o profeta da alegria de Deus (Juan Luis Segundo), amava a vida. Vida plena é uma vida livre, sem culpa, sem ódio, sem pavor, sem violência. Onde os sonhos são restaurados, o perdão é manifestado, a esperança renasce. Onde nenhum sistema religioso vale mais que a alegria de um cego que volta a enxergar. Bem, não importa muito o ladrão, sempre se manifestará. Acho que o drama do cego também não nos motiva muito. Talvez, de alguma forma, já fomos ladrões, já fomos cegos. O que importa é a vida plena em Jesus, é o novo olhar que ele nos dá para viver. Nem ladrões nem cegos, mas cheios de vida em Jesus.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A Condição Humana e Jesus de Nazaré

Não são os que têm saúde que precisam de médicos, mas sim os doentes /.../Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores. (Mateus 9:12,13). Quando Jesus partilha a mesa com publicanos e pecadores (Mt 9:10), ele está apresentando Deus como alguém que não se restringe aos sistemas religiosos, mas que caminha com pessoas, no quotidiano da vida. Jesus não define o que é o ser humano, mas esboça o que ele vê na condição humana. Nós, cristãos ocidentais, geralmente pensamos o ser humano, em nossa antropologia teológica, como ‘pecador’, sempre associado a questão moral. Sim, o ser humano é pecador. Mas Jesus traz outro viés de compreensão, uma condição humana doente. O ser humano é um ser doente. Não se trata simplesmente de uma doença física ou moral, mas uma doença da existência. A doença não é somente uma imperfeição, mas é a ausência de algo, é o organismo dizendo que algo está faltando, não está completo. Rubem Alves caracteriza o ser humano como um ser de desejo. É sempre um desejo, uma busca. O desejo é sempre a busca pelo que não se tem, é a angústia da ausência, um doente não tem saúde. Dostoievski, em seu livro Memórias do Subsolo diz o seguinte: “ Sou um homem doente...Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo” (2008, p.15). Talvez a condição humana é ‘pergunta’. Há sempre uma pergunta: Por quê? O quê? Para onde? De onde? Como? É conviver com o mistério, isso nos incomoda. A religião tenta sanar esse problema, muitos tentam encontrar respostas no consumismo, no entretenimento, na bebida, nas drogas, no sexo, num romance, num trabalho, enfim, é sempre uma busca, há sempre a tentativa de se completar. Jesus ironiza, “os que têm saúde não precisam de médicos.” “Não vim chamar justos, mas pecadores”. Quem tem saúde? Quem é justo? Jesus disse que veio chamar. É o chamar para caminhar Nele e com Ele. É a caminhada naquilo que se completará, uma condição humana semelhante a de Jesus, que se constrói a cada dia, uma construção que nunca para. Uma é a condição humana doente, incompleta em si mesma, que sempre se pergunta. Outra é a condição humana doente, incompleta em si mesma, que sempre se pergunta, mas que caminha na fé com e em Jesus. Uma caminhada que ama a vida apesar de suas inquietações, assim como Jesus, mesmo consciente da cruz e da morte, não deixou de viver, amar e ter esperança.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Quem é o Deus de Jesus de Nazaré?

Vendo isso, os fariseus perguntaram aos discípulos dele: “Por que o mestre de vocês come com publicanos e pecadores?” Ouvindo isso, Jesus disse: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Vão aprender o que significa isto: ‘Desejo misericórdia, não sacrifícios. ’ (Mateus 9:11,12) ... Pois desejo misericórdia, e não sacrifícios; conhecimento de Deus, em vez de holocaustos.” (Oéias 6:6) A pergunta dos fariseus direcionada aos discípulos de Jesus só poderia ser respondida por Jesus. Afinal de contas, um mestre com credibilidade não poderia participar da mesa com publicanos e pecadores. Muito menos convidar um publicano (cobrador de impostos), que era considerado traidor de seu povo, para ser um discípulo. O que está em questão aqui é a compreensão sobre Deus, ou seja, como os fariseus interpretavam Deus e como Jesus interpretava. Havia dois códigos (interpretações teológicas) que se chocavam. O código da pureza, que pontuava puros somente aqueles que guardavam a Lei, a classe sacerdotal, cujo poder estava concentrado em Jerusalém, no Templo. O outro código, defendido por Jesus, era o código da aliança. Esse código, que também foi defendido pelos profetas – Amós, Miquéias, Oséias e outros - onde lembrava dos marginalizados, o povo do norte, o deserto, a Galiléia. Em palavras mais simples, Jesus não via Deus como um Deus apenas dos “puros”, mas um Deus que partilhava a mesa com pecadores (mulheres, crianças, doentes, publicanos, samaritanos, galileus, pescadores, pastores etc) que caminhava no concreto da vida, que sofria com a dor humana, um Deus que inclui. É o Aba - Pai Nosso (Mt 6:9), não apenas dos ‘puros’, mas de pecadores também, é nosso, não apenas meu. O código da pureza via um Deus que castigava, que ignorava quem não cumpria a Lei e não se submetia ao sistema do Templo, um Deus exclusivista. Por isso Jesus convida: “Vão aprender o que significa: desejo misericórdia, não sacrifícios.” Afinal de contas, quem é o Deus de Jesus de Nazaré? É um Deus que tem desejo, que espera algo de seus seguidores. O que ele espera não é um conjunto de ritos bem ordenados, um culto bem dinâmico - não que isto não seja uma coisa boa - o que ele deseja e espera é ver em nós misericórdia, perceber os outros, não apenas nós mesmos. É uma percepção mais sólida da realidade da vida, um Deus que se faz presente na História, que nem sempre nos livra do mal, mas sofre o mal conosco (L. Boff). Talvez essa compreensão seja, para muitos, irrelevante em nossos dias, afinal, o que faz “sucesso” é a versão triunfalista – O Deus de milagres, o Deus da vitória, um Deus ‘gospel’, midiático e fragmentado, onde “depende” de seus ungidos famosos, cada um com sua “unção” especial. Ao invés de desejar aprender misericórdia, o desejo parece ser mais por fórmulas específicas para se alcançar a bênção, a prosperidade, o sucesso. Concluo com uma pergunta: Quem é o Deus de Jesus de Nazaré? Melhor dizendo: Quem é o nosso Deus?

terça-feira, 1 de maio de 2012

Arados ou Armados? Uma reflexão sobre o dia do trabalho.

Das suas espadas farão arados, e das suas lanças, foices. Nenhuma nação erguerá a espada contra outra, e não aprenderão mais a guerra. ( Miquéias 4:3b) O trabalho mantém a dinâmica de uma sociedade. É claro que não podemos deixar de levar em conta os fatores de alienação e exploração que o materialismo histórico de Marx apontou. As muitas injustiças que ainda existem, como o fato da ‘mais valia’, isto é, quem lucra com o trabalho de quem produz, quem põe a mão na obra e quem enriquece com isto, o mundo do ‘Mercado Livre’ sem alma, onde empresários têm mais força que Estados. Há trabalhadores que se esforçam por manter a sociedade com menos selvageria e mais civilidade, enquanto que o mundo da bola paga milhões a alguns jogadores que em nada contribuem, a não ser, entretenimento. O que nos leva a concluir que nem tudo o que é honesto é moral. Não podemos nos esquecer daqueles que deveriam, com seu trabalho, possibilitar um país mais justo e digno, mas nem sempre conseguem ver além de seus próprios interesses políticos e pessoais. Apesar de tudo isso, o texto de Miquéias aponta a linguagem profética, cuja esperança do cultivo teria mais força que a tirania da desigualdade, onde a promessa era de que o mundo das espadas, das guerras, seria transformado em um mundo do trabalho, da justiça. Trabalho ao invés de violência, de exploração, de intolerância, de injustiças. Foice ao invés de espada, alimentos ao invés de chacinas, partilha ao invés de enriquecimento ilícito. Homens com arados ao invés de homens armados. O trabalho, no reino de Deus, não é apenas para o sustento do lar, mas um instrumento de promoção de justiça, de dignidade, de generosidade, de vida social, enfim, de espiritualidade. Que Deus abençoe a todos os trabalhadores de nosso país, que a paz e a justiça sejam fartas em seus lares.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A família e o Sofrimento

Sermão pregado na SIB de Jacupiranga no dia 23 de Maio de 2010

Texto: Jó 1:13-19; 38: 1-3; 40:1-5; 42:3-6

Estamos mais uma vez refletindo sobre a família, algo que mexe conosco. Eu me preocupo com pessoas que, ao ouvir ou falar sobre família, não se sentem incomodadas ou tocadas. Já falamos sobre a família e seus desafios frente as transformações sociais; aprender com as mães: aprender para a vida; aprendendo com os bebês; Questões sobre sexualidade; agora vamos pensar sobre a família e o sofrimento. Na verdade as pessoas não gostam muito de falar ou ouvir sobre o sofrimento, preferem falar sobre sucesso, vitórias, conquistas, o sofrimento parece soar como fracasso, derrota. O problema é que o sofrimento é um tema presente na condição humana, na família.

Dificilmente uma família não tem marcas de dor, de sofrimento. É claro que há sofrimentos provocados por decisões erradas, como envolvimento com pessoas erradas, vícios, doenças que poderiam ser evitadas: obesidade, câncer causado pelo cigarro, problemas cardíacos decorrente de má alimentação e outras, acidentes por imprudência etc. Há também o sofrimento social, causado pela injustiça, pela ambição desenfreada de pessoas desumanas em detrimento da fome de outros.

Mas ao pensar sobre o sofrimento estamos referindo a algo que acomete a família, quando de repente todos são pegos de surpresa pela noticia de uma doença grave, de uma tragédia. Esse tipo de coisa que deixa marcas profundas pelo resto da vida e que se não for a misericórdia de Deus fica muito difícil continuar a vida. Não é preciso muito esforço para lembrar de casos aqui mesmo entre nós. Famílias que conviveram e convivem com a dor da perda de entes queridos. Esse ano para nós começou com uma perda de um jovem muito amado, o Josias. Essa semana fiquei sabendo de um primo, de apenas dezesseis anos que está com leucemia, em estágio avançado, precisando passar por quimioterapia a cada doze horas. Sua mãe ( minha prima) é enfermeira, acostumada a lidar com a dor, agora vê de perto o sofrimento do filho e consequentemente o seu.

O livro de Jó é um livro poético e sapiencial, onde reflete justamente a relação do homem com o sofrimento e do pensamento desse sofrimento em relação a Deus. Começa justamente falando sobre a mudança repentina na vida de um homem justo, perda dos bens, dos filhos e da própria saúde. Chorou a morte de todos os filhos. Mesmo que o texto destaque uma certa retribuição (recebeu tudo em dobro o que perdeu) no final do livro, os filhos que perdeu nunca puderam ser substituídos.

O livro é quase todo tratado em diálogos. Os amigos de Jó, Eliú, Jó e Deus (Javé). Esses diálogos expressam o que Juan Luis Segundo chama de duas teologias e meia. A primeira teologia é a teologia dos amigos de Jó, a teologia que tentava explicar o sofrimento de Jó como consequência de seu pecado. É a tentativa de explicar o sofrimento na relação causa e efeito (pecou-sofreu), do tipo “O que fiz para estar sofrendo issp?!.” A segunda teologia é a de Jó, que se defende em alguns momentos, em outros se revolta, outros se vê como pecador. A tentativa de entender o sofrimento e suas causas, o que está acontecendo.

Há muitos que são muito simplistas em afirmar que Deus deve ter um propósito, que não se deve perguntar o porque , mas o para quê. Uma teologia muito fatalista, como se fosse vontade de Deus. Dias atrás houve um avião que caiu na África, se não me engano, onde morreram 102 pessoas e uma criança de 10 anos sobreviveu. Muitos destacaram a soberania de Deus no fato daquela criança sobreviver, mas fica a pergunta: e as outras 102 pessoas? Como fica? Seria o destino delas?

A terceira teologia é a chamada meia teologia. É meia porque não tem resposta, ou seja, é a ausência de resposta. O silêncio é a única reação. Diante dessa meia teologia, do silêncio, da dúvida, é que nos faz ver a vida de forma mais real, livre. Deus não explica o sofrimento, não se coloca como autor dele, parece nos dizer, se vocês não entendem então se calem. A partir dessas considerações, pensamos sobre alguns princípios alguns nessa relação entre a família e o sofrimento.

1- Ame sua família enquanto você a tem
2- Aceite seus familiares como eles são. Aceite a pessoa, mesmo discordando de suas atitudes.
3- Se o sofrimento chegar, não deixe de viver o máximo e o melhor possível.
4- Não procure explicações, é melhor o silêncio.

Claudinei Fernandes

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Sócrates e o mundo gospel

“Estou apenas observando quanta coisa de que não preciso para ser feliz.” Essas, segundo Platão, são palavras de Sócrates ao passear pelo centro comercial de Atenas. Observar o que não é preciso para ser feliz é um exercício bastante inusitado. Não é comum alguém pensar sobre o que não é necessário ou o que não é útil, até porque pensar isso em uma sociedade de consumo soa como uma certa esquisitice.

Há uma certa loja muito conhecida no país que tem a seguinte frase de impacto: “ Vem ser feliz.” O ser feliz significa comprar algo naquela loja. Não se pode negar o poder do marketing, mas não se pode reduzir a vida e a felicidade a esse consumismo. É o mesmo que acreditar que alguém com um casamento arrebentado pode ser feliz comprando um celular novo. Talvez faça sentido para alguns, afinal, celular não tem sentimentos, portanto, não é capaz de de se estressar, de ficar emburrado, de ter TPM, mas também não é capaz de dar carinho, de encorajar, de abraçar. Celular é apenas um aparelho de comunicação, um produto de tecnologia. Tudo o que é tecnológico tem significado muito, pois o tecnológico é também simbólico, simboliza conquista, poder.

Não é muito difícil alguém pensar da seguinte forma: “Como houve vida antes da internet?” “Como pensar o mundo sem o msn ou o orkut?” O consumo e essa “tecnificação” da vida está levando as pessoas a um mundo tão virtual que nos faz voltar a Platão, com o mundo das ideias, da representatividade. A impressão que dá é que as pessoas, os sentimentos, o humano, nada mais são que representatividade e que o que interessa é o mundo virtual, o mundo do consumo.

Isso não é diferente no mundo evangélico e religioso. Ao pensar na oração, por exemplo, não significa mais, no imaginário das pessoas, uma forma de falar com Deus e de se relacionar com o Pai, mas uma maneira de se alcançar uma benção, uma espécie de cartão de crédito espiritual. Como não falar do conteúdo bíblico-teológico, que tem sido reduzido a meros chavões de auto-ajuda. A arte e a música no chamado mundo “gospel” tem sido muito mais um apelo de mercado, com um forte reforço de superficialidade, do que a preocupação com a vida e com a fé.

Talvez a provocação de Sócrates poderia ser feita nesse mundo “gospel”: “Estou apenas observando quanta coisa de que não preciso para ser feliz.” O que não preciso ouvir, o que não preciso cantar, o que não preciso participar, o que não preciso concordar, o que não preciso consumir.

Claudinei Fernandes

segunda-feira, 29 de março de 2010

Alguns momentos com René Padilha

Semana passada, dia 26/03, participei, na companhia de dois colegas aqui do Vale do Ribeira (Richard e Jeriel) de uma palestra na IBAB (Igreja Batista da Água Branca), ministrada pelo pastor e teólogo René Padilha. É sempre motivador e ao mesmo tempo desafiador ouvir pessoas com a experiência e a mente de homens como René Padilha. Ele nos trouxe um histórico de sua trajetória, com muita humildade e simpatia em seu “rebuscado” portunhol. Compartilhou um pouco de sua dor pessoal, pois recentemente ficou viúvo. Com humor, disse que a única coisa boa que aconteceu, enquanto fez o seminário teológico, foi conhecer a mulher com que se casou e viveu até poucos meses atrás.

Relatou os congressos missionários do Século XX, cujos primeiros não houve a presença de latino americanos. Compartilhou que certa vez foi indagado por um professor marxista sobre qual o papel ou que relevância as igrejas protestantes tinham para os problemas sociais no mundo. Ele não soube responder, isso se deu no começo da década de 60. A partir de então começou a refletir sobre essa questão, sobre a missão integral, que o evangelho deve ser integral. Algumas frases que citou me chamou atenção: “Jesus não veio só para falar do amor de Deus, mas para viver e manifestar esse amor.” “Vida em abundância tem a ver com a reconstrução das relações humanas e com a criação.” “Ser seguidor de Jesus Cristo não é apenas ser participante de uma comunidade, mas é aquilo que somos, pensamos e vivemos.” O que mais frisou foi que “teologia sem vida não vale nada. O Logos se fez vida”. Relatou a incompreensão que sofreu por parte de igrejas e teólogos, devido a teologia tradicional de missão (salvação/céu), uma teologia salvacionista e desvinculada da vida.

Destacou a tríade que, segundo ele, a Bíblia aponta: viúva, órfão e estrangeiro. Sua base é Miquéias 6: 8: O que Deus pede ao homem é que pratique a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente com Deus. O que causou um espanto, principalmente a ele, foi o fato de haver pouquíssimas publicações e traduções dos textos do espanhol para o português. Há muita produção séria de teologia latino americana, escritas em espanhol, que infelizmente no Brasil não são traduzidas. Isso mostra o quanto o mercado literário brasileiro, em termos de teologia, ainda é pobre. As traduções são geralmente do inglês norte americano, apenas por interesse de mercado e que contribuem muito pouco ou quase nada para a reflexão teológica.

A reação foi feita pelo professor Jung M. Sung da UMESP, onde salientou a importância de Padilha para a produção teológica na América Latina. Na sua fala afirmou que teologia não é o estudo de Deus, mas é uma reflexão crítica, sistemática sobre a experiência da fé. Também frisou que cristianismo é uma religião que tem problema com a religião e que hoje há uma carência de uma nova geração de pensadores. Concluiu sua parte comentando sobre o consumismo como idolatria, principalmente quando se tenta consumir algo carregado de símbolo, citando o exemplo de uma Ferrari de dois milhões de reais. Isso, segundo ele, já não é ter algo, mas é a tentativa de ser dono de algo que é muito maior, de uma divindade, portanto, idolatria. Simplicidade é viver sem ídolos.

Houve várias perguntas pelo plenário e todas respondidas. A iniciativa na participação do Pr. René Padilha foi da RENAS, Rede Evangélica Nacional de Ação Social (www.renas.org.br). Foram destacadas também os inúmeros projetos socais desenvolvidos no Brasil por igrejas locais e por iniciativas particulares. Valeu a pena participar desses momentos de reflexão e inspiração, que me fez pensar e sentir que o evangelho precisa fazer parte de uma realidade histórica e concreta, que está além dos púlpitos, cultos e templos.

Claudinei Fernandes

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Tributo a um SERVO

Hoje, 9/02/2010, foi um dia muito triste. Depois de quinze dias de espera e angústia, finalmente pudemos velar e sepultar o corpo do Josias. No dia 25 de Janeiro ele morreu afogado em um rio de Minas Gerais. Foram duas semanas de busca, bombeiros, mergulhadores, empenho , desespero misturado com uma ponta de esperança. Impossível esquecer a face de deu pai e irmão ao dar a noticia do acontecido. Não dá para esquecer as lágrimas de sua mãe, pai e irmãos, além das cunhadas e sua namorada, durante o velório. O choro dos jovens, da igreja e dos amigos.

O jovem Josias Felisbino foi alguém que deixou uma marca muito profunda na vida da Segunda Igreja Batista de Jacupiranga. Lamentamos sua partida, sofremos com a família, apesar de não mensurarmos a dor de seus pais. Aprendi demais com ele. Sua humildade, seu sorriso, sua servitude, um cristão digno de ser imitado. Diante desse momento, a única reação que me vem à alma é o SILÊNCIO.

O Josias está nos braços do PAI. Gostaria de citar sua mensagem registrada em seu Orkut: “Não perca a paciência. Recorde a paciência inesgotável de Deus”. “Sou apenas um servo de Deus” (Josias Felisbino).

J uventude
O lhar
S orriso
I rmão
A mado
S AUDADE