Sermão pregado na SIB de Jacupiranga no dia 22 de Novembro (domingo) pela manhã.
“Faltavam apenas dois dias para a Páscoa e para a festa dos pães sem fermento. Os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei estavam procurando um meio de flagrar Jesus em algum erro e matá-lo. Mas diziam: ‘ Não durante a festa, para que não haja tumulto entre o povo.’ Estando Jesus em Betânia, reclinado à mesa na casa de um homem conhecido como Simão, o leproso, aproximou-se dele certa mulher com um frasco de alabastro contendo um perfume muito caro, feito de nardo puro. Ela quebrou o frasco e derramou o perfume sobre a cabeça de Jesus. Alguns dos presentes começaram a dizer uns aos outros, indignados: ‘Por que este desperdício de perfume? Ele poderia ter vendido por trezentos denários, e o dinheiro ser dado aos pobres’. E a repreendiam severamente. ‘Deixem-na em paz’, disse Jesus. Porque a estão perturbando? Ela praticou uma boa ação para comigo. Pois os pobres vocês sempre terão com vocês. Mas a mim nem sempre terão. Ela fez o que pôde. Derramou o perfume em meu corpo antecipadamente, preparando-o para o sepultamento. Eu lhes asseguro que onde quer que o evangelho for anunciado, em todo o mundo, também o que ela fez será contado em sua memória. Então Judas Iscariotes, um dos doze, dirigiu-se aos chefes dos sacerdotes a fim de lhes entregar Jesus. A proposta muito os alegrou, e lhe prometeram muito dinheiro. Assim, ele procurava uma oportunidade para entregá-lo.”(Marcos 14:1-11)
Muita coisa se fala de adoração. Acredito que seja muito importante se falar nesse assunto. Mas a adoração deve ser construída a partir de uma teologia muito bem analisada sobre Jesus. Afinal somos cristãos e não judeus. Ao analisarmos adoração somente sob o viés do Antigo Testamento, sem um olhar em Jesus e em sua mensagem, nos tornamos quase que judeus. Mas também não podemos olhar para Jesus somente como o salvador das nossas vidas, que morreu em nosso lugar (ele foi de fato), mas precisamos compreender o teor de sua mensagem de Reino de Deus, em especial nos evangelhos. A partir disto então, podemos pensar sobre adoração.
Estamos diante de um texto marcante e desafiador. Durante muito tempo fiquei pensando sobre o que Jesus quis dizer sobre ‘onde o evangelho for anunciado, em todo o mundo, também o que ela fez será contado em sua memória.’ (v.9). A atitude da mulher foi algo que desafiou a compreensão de todos os que ali estavam, mas Jesus percebeu nela algo que nem em seus discípulos havia percebido. Ela Compreendeu a real mensagem de Jesus. Para tentar explicar isto de forma mais clara, vamos pensar o que Jesus representava para as pessoas ali presentes: os chefes dos sacerdotes, os mestres da lei, alguns dos presentes na casa, Judas Iscariotes e a mulher.
1.Jesus representava uma ameaça
Ameaça para os mestres da lei e aos chefes dos sacerdotes. A lógica da pureza se tornara predominante em Jerusalém. Jesus não concordava com essa lógica, pois ela colocava Deus como um Deus distante, punitivo, vingativo. Excluía os pobres, doentes, mais fracos. Era o sistema religioso que predominava no sul, na Judéia e Jerusalém. A vida e a mensagem de Jesus incomodavam, pois tirava dos sacerdotes a prerrogativa da purificação. Jesus perdoava pecados, tocava em leprosos e ensinava isso como Reino de Deus. Ele mostrava que o elemento escatológico não era um Deus punindo o mundo com sua ira, mas um Deus presente na vida dos sofredores.‘ Os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei estavam procurando um meio de flagrar Jesus em algum erro e matá-lo. (v.1) Mas diziam: “ Não durante a festa, para que não haja tumulto entre o povo.” (v.2).’
Queriam acabar com a ameaça. Jesus era uma ameaça a todo o sistema religioso da época. Sua vida e sua mensagem poderiam acabar com a tradição da lógica da pureza. Jesus não excluía, estava na casa de Simão, o leproso. Convivia com pessoas comuns, vinha da Galiléia. Não era alguém do centro sócio-religioso, mas um periférico.
2.Uma Decepção
Para Judas Iscariotes, Jesus foi uma decepção. Ele não era um líder revolucionário como esperava. Judas era provavelmente um Zelota, um radical, que acreditava em uma revolução com armas. Por isso, imaginou que Jesus seria o grande líder desta revolta. Ele foi traidor, mas também traído por usa ideologia de revolução. (v.9)
Jesus pode ser uma decepção para muitos, pois ele pode não representar aquilo que imaginam ou esperam. Há muitas expectativas erradas sobre Jesus. Ele não é a solução para todos os problemas, mas ele tem uma mensagem do Reino de Deus.
3. Deus 'entre' e 'para' os fracos
Aquela mulher entendeu isto. E por conta dessa compreensão derramou o que ela tinha de mais precioso em Jesus. Viu em Jesus o perdão, a humildade, a humanidade, a graça Muitos ficaram indignados (v.4). Mencionaram até a venda deste perfume para doar aos pobres. Ele custava o equivalente a quase um ano de trabalho. ‘Ela derramou o perfume em meu corpo antecipadamente, preparando-o para o sepultamento. (v.8).’
A mulher percebeu que a morte se aproximava de Jesus. Os profetas tinham a morte, o assassinato como fim, pois incomodavam. Ela viu em Jesus alguém que apresentou a vida com outros olhos, que amou, que andou com pessoas esquecidas, abandonadas, que não buscou fama, riqueza, mas que apresentou Deus como alguém entre os mais fracos. Aquela mulher entendeu a mensagem do Reino. Por isso o adorou. Por isso o homenageou e nem se deu conta dos demais líderes ali presente. Jesus diz que esse Ato jamais seria esquecido (v.9). Adoração deve partir de uma compreensão de Jesus, de sua mensagem de reino.
Conclusão:
Adoração deve passar sob o viés de Jesus de Nazaré, sob a perspectiva que temos em relação a sua vida e mensagem, principalmente a mensagem do Reino de Deus. Um perfume caro foi derramado sobre ele, por uma mulher que adorou. Não podemos reduzir a adoração a apenas cânticos de louvor ou momentos do culto, mas adorar com a vida, quando compreendemos o reino de Deus, permitindo que Deus, através de nós, se faça presente entre os mais fracos.
À Escuta do outro é um blog que busca a reflexão teológica e seus eixos transversais a partir de várias chaves de leitura. O diálogo é o eixo central,onde "escutar o outro" como o outro é e onde se encontra, busca propor um humano melhor. A reflexão teológica pode partir de seus interlocutores: filosofia, literatura, biblia, práxis, pastoral,eclesiologia, sociologia,psicologia e outros.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Milton Nascimento (Caetano Veloso) Terceira Margem do Rio
Homenagem ao meu irmão Clademilson Fernandes Paulino da Silva. Recentemente concluiu seu Doutorado em Ciências da Religião. Pesquisou o sagrado em Guimarães Rosa. Além de pesquisador é alguém que ousa a buscar a 'terceira margem do rio.'
O trágico e o belo na condição humana- parte II
“A que posso comparar esta geração? São como crianças que ficam sentadas nas praças e gritam umas às outras: ‘Nós lhe tocamos flauta, mas vocês não dançaram; cantamos um lamento, mas vocês não se entristeceram’.” ( Mateus 11:16,17).
Um dos melhores momentos para uma pessoa é quando ela se depara com sua finitude e percebe que precisa aproveitar bem todas as fases da vida. Infelizmente a grande angústia para muitos é lidar com isso, com as fases da vida. Há pessoas que insistem em recusar a fase que vive. Talvez por isso o sonho de consumo de muitos é uma cirurgia plástica ou uma lipo aspiração. A estética a todo custo, juntamente com o prazer a todo custo, têm causado um drama, pois essa obsessão pela “beleza” tem tornado as pessoas vítimas de uma exclusão. A vida passa a ser bela apenas para alguns, para aqueles que têm recursos e conseguem manter uma aparência mais jovem.
Uma postura dessas, além de não conhecer o significado de humanidade, não consegue compreender o real significado do belo. O que é o belo na vida? O que leva as pessoas a lutarem contra a própria vida em busca de algo que tão irreal? Interessante notar alguns adultos que usam roupas de adolescentes. Ouvi outro dia um ‘causo’: “um menino estava chorando, quando um velhinho viu e resolveu perguntar o motivo daquele choro. O menino então respondeu ao velho: “Eu estou chorando porque queria ter dezoito anos.” O velho olhou para o menino e também começou a chorar, dizendo: “ Eu também queria ter dezoito anos.”
O descontentamento com o próprio corpo tem causado doenças que nossas avós talvez jamais imaginassem existir: bulimia, anorexia. Como pode a luta pela beleza se tornar a tragédia na vida de pessoas? Esse desejo frenético pelo ‘belo’ tem sido vivido não só na individualidade das pessoas, mas também nas instâncias sociais e religiosas. O anseio de mostrar que é belo, jovem, representa a tentativa de mostrar que tem mais vida, mais poder. Não é difícil perceber isso no cenário religioso. Quem pode me explicar qual o sentido de uma ‘marcha para Jesus’? O que isso tem de significado concreto? Ou o que isso tem de relevância para o evangelho? Talvez tenha algum significado estético, isso eu concordo!
O que dizer de templos suntuosos ou de concorrência entre mega igrejas, que são muito “atrativas”, com suas estruturas “salomônicas” e empresariais, mas que têm dificuldade de conhecer a dor das viúvas, dos doentes, dos desempregados, dos viciados. É claro que isso atinge a todos, as megas e as pequenas igrejas. Programas televisivos que usam a mídia como meio de mostrar prestígio e poder, muito mais do que para levar o evangelho (há exceções).
A luta pelo estético tem sido maior do que a luta pela beleza da vida, pela beleza da justiça, pela beleza do sorriso das crianças e dos velhos. Como pensar igreja e até mesmo uma denominação apenas a partir de sua liturgia e não perceber que a beleza da igreja está nas pessoas e em Jesus. Mas essas pessoas são de carne e osso, que vivem as lutas do cotidiano, que querem ser notadas, não pela beleza de seus corpos, não pelos hinos que cantam, não pela tradição eclesiástica, mas pela beleza de suas vidas.
Nossa teologia poderia ser mais parecida com a de Juan Luis Segundo: “Uma teologia com sabor de vida.” Por isso eu acredito que a beleza da vida esteja realmente no dançar ao som das flautas e no chorar com o lamento, não como crianças birrentas que fazem o contrário, mas como pessoas conscientes que sabem discernir a fase da dança e a fase do lamento, vivendo cada fase da vida com dignidade e liberdade. (Mt 11:16,17)
Claudinei Fernandes
Um dos melhores momentos para uma pessoa é quando ela se depara com sua finitude e percebe que precisa aproveitar bem todas as fases da vida. Infelizmente a grande angústia para muitos é lidar com isso, com as fases da vida. Há pessoas que insistem em recusar a fase que vive. Talvez por isso o sonho de consumo de muitos é uma cirurgia plástica ou uma lipo aspiração. A estética a todo custo, juntamente com o prazer a todo custo, têm causado um drama, pois essa obsessão pela “beleza” tem tornado as pessoas vítimas de uma exclusão. A vida passa a ser bela apenas para alguns, para aqueles que têm recursos e conseguem manter uma aparência mais jovem.
Uma postura dessas, além de não conhecer o significado de humanidade, não consegue compreender o real significado do belo. O que é o belo na vida? O que leva as pessoas a lutarem contra a própria vida em busca de algo que tão irreal? Interessante notar alguns adultos que usam roupas de adolescentes. Ouvi outro dia um ‘causo’: “um menino estava chorando, quando um velhinho viu e resolveu perguntar o motivo daquele choro. O menino então respondeu ao velho: “Eu estou chorando porque queria ter dezoito anos.” O velho olhou para o menino e também começou a chorar, dizendo: “ Eu também queria ter dezoito anos.”
O descontentamento com o próprio corpo tem causado doenças que nossas avós talvez jamais imaginassem existir: bulimia, anorexia. Como pode a luta pela beleza se tornar a tragédia na vida de pessoas? Esse desejo frenético pelo ‘belo’ tem sido vivido não só na individualidade das pessoas, mas também nas instâncias sociais e religiosas. O anseio de mostrar que é belo, jovem, representa a tentativa de mostrar que tem mais vida, mais poder. Não é difícil perceber isso no cenário religioso. Quem pode me explicar qual o sentido de uma ‘marcha para Jesus’? O que isso tem de significado concreto? Ou o que isso tem de relevância para o evangelho? Talvez tenha algum significado estético, isso eu concordo!
O que dizer de templos suntuosos ou de concorrência entre mega igrejas, que são muito “atrativas”, com suas estruturas “salomônicas” e empresariais, mas que têm dificuldade de conhecer a dor das viúvas, dos doentes, dos desempregados, dos viciados. É claro que isso atinge a todos, as megas e as pequenas igrejas. Programas televisivos que usam a mídia como meio de mostrar prestígio e poder, muito mais do que para levar o evangelho (há exceções).
A luta pelo estético tem sido maior do que a luta pela beleza da vida, pela beleza da justiça, pela beleza do sorriso das crianças e dos velhos. Como pensar igreja e até mesmo uma denominação apenas a partir de sua liturgia e não perceber que a beleza da igreja está nas pessoas e em Jesus. Mas essas pessoas são de carne e osso, que vivem as lutas do cotidiano, que querem ser notadas, não pela beleza de seus corpos, não pelos hinos que cantam, não pela tradição eclesiástica, mas pela beleza de suas vidas.
Nossa teologia poderia ser mais parecida com a de Juan Luis Segundo: “Uma teologia com sabor de vida.” Por isso eu acredito que a beleza da vida esteja realmente no dançar ao som das flautas e no chorar com o lamento, não como crianças birrentas que fazem o contrário, mas como pessoas conscientes que sabem discernir a fase da dança e a fase do lamento, vivendo cada fase da vida com dignidade e liberdade. (Mt 11:16,17)
Claudinei Fernandes
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
O trágico e o belo na condição humana – parte I
Às vezes fico imaginando como seria melhor se a vida fosse menos complicada! Mas quando reflito um pouco mais, pergunto a mim mesmo: “Se a vida fosse menos complicada, seria vida?” Há muitas tentativas de compreender ou até mesmo de explicar a condição humana. Dentre essas tentativas há a forte presença da religião. Em relação ao cristianismo, a perspectiva mais conservadora aponta como causa da ‘tragicidade’, o problema do pecado. Alguns mais ‘místicos’ preferem protagonizar o Diabo como principal motivo do fracasso humano. O fato é que esses olhares acabam reduzindo a condição humana a uma forma muito simplista. O que dizer, por exemplo, para um pai que perde seu filho por uma bala perdida? O que pensar quando famílias são vítimas da violência doméstica? Como encarar o suicídio? Por que pessoas se escravizam cada vez mais nas drogas?
O pior é quando se confronta essa realidade com o tipo de cristianismo compreendido pelas pessoas. Lembro-me do começo de meu ministério, quando ministrava um estudo para alguns jovens. Mencionei que em um determinado país da África, muitos estavam passando fome, inclusive cristãos evangélicos. Mal acabei de falar e uma jovem fez um questionamento dizendo: “Então essas pessoas não são convertidas, pois um crente não passa fome.” O interessante é que essa jovem era uma estudante universitária, com uma vida estável, tinha um carro novo que seu pai havia lhe dado para ela não se estressar em andar a pé ou de ônibus até a faculdade. Exemplos assim, infelizmente, são muito comuns. Para alguns a “bênção” de Deus, para outros a falta de fé! Ainda há aqueles e aquelas que acreditam que algumas tragédias da natureza são conseqüências da idolatria de determinadas religiões. Chegam afirmar que é o cumprimento da “palavra” de Deus.
Sou um apaixonado pela Bíblia, mas tenho pavor de interpretações fundamentalistas, alienadas e desconexas da condição humana. Além da Bíblia, a partir de uma interpretação mais livre e voltada para o humano, vejo o pulsar da vida na literatura. Como não inquietar as ‘entranhas da alma’ ao ler “Memórias do Subsolo”? Como não chorar diante da dor e da beleza em “Os irmãos Karamazov”? Como não pensar na ‘pureza’, ou na coragem de viver em “O Idiota”? (Obras de Dostoievski). Como não sentir a dor da solidão ao ler “Cem anos de solidão” de Gabriel Garcia Marques? O final dessa obra me confronta: “ ...porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra.” Como não pensar na vida, no cotidiano de milhões de pessoas que passarão sem uma segunda oportunidade sobre a terra? Garcia Marques me faz lembrar uma música dos Titãs, chamada Marvin. A música aborda o triste fim de um pai de família, que antes de morrer diz ao filho: “Marvin, agora é só você, eu fiz o meu melhor, e o seu destino eu sei de cor... Marvin, agora é pra valer, chorar só vai lhe fazer sofrer...”
Para que eu não seja compreendido como um herege ou um pessimista, o livro do Eclesiastes pode me ajudar: “Vi as lágrimas dos oprimidos, mas não há quem os console; o poder está do lado dos seus opressores, e não há quem os console.” ( Ec 4:1); “ Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos.”( Ec. 9:11)
Talvez uma pergunta passe na cabeça de muitos. Como fazer para mudar isso? Quais os passos necessários? Eu diria que não há passos, pois o que a vida nos ensina é exatamente o contrário. A vida é avessa a fórmulas lógicas e cartesianas, a ‘receitas’ de auto-ajuda, a qualquer triunfalismo evangélico. Vida é apenas vida! “Para contar os dias, basta um dia ao homem para conhecer toda a felicidade.” (Dostoievski). Para viver bem, é preciso saber viver. Ter vida plena em Jesus não é viver sem problemas ou nunca ter crises, mas é aprender a amar a vida como ela é e perceber na condição humana, com o trágico e o belo, a Imagem de Deus. Somente nessa percepção é que nos tornamos mais humanos. “ ...se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto.” ( Jo 12:24)
Creio que seria um bom começo...
Claudinei Fernandes
O pior é quando se confronta essa realidade com o tipo de cristianismo compreendido pelas pessoas. Lembro-me do começo de meu ministério, quando ministrava um estudo para alguns jovens. Mencionei que em um determinado país da África, muitos estavam passando fome, inclusive cristãos evangélicos. Mal acabei de falar e uma jovem fez um questionamento dizendo: “Então essas pessoas não são convertidas, pois um crente não passa fome.” O interessante é que essa jovem era uma estudante universitária, com uma vida estável, tinha um carro novo que seu pai havia lhe dado para ela não se estressar em andar a pé ou de ônibus até a faculdade. Exemplos assim, infelizmente, são muito comuns. Para alguns a “bênção” de Deus, para outros a falta de fé! Ainda há aqueles e aquelas que acreditam que algumas tragédias da natureza são conseqüências da idolatria de determinadas religiões. Chegam afirmar que é o cumprimento da “palavra” de Deus.
Sou um apaixonado pela Bíblia, mas tenho pavor de interpretações fundamentalistas, alienadas e desconexas da condição humana. Além da Bíblia, a partir de uma interpretação mais livre e voltada para o humano, vejo o pulsar da vida na literatura. Como não inquietar as ‘entranhas da alma’ ao ler “Memórias do Subsolo”? Como não chorar diante da dor e da beleza em “Os irmãos Karamazov”? Como não pensar na ‘pureza’, ou na coragem de viver em “O Idiota”? (Obras de Dostoievski). Como não sentir a dor da solidão ao ler “Cem anos de solidão” de Gabriel Garcia Marques? O final dessa obra me confronta: “ ...porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra.” Como não pensar na vida, no cotidiano de milhões de pessoas que passarão sem uma segunda oportunidade sobre a terra? Garcia Marques me faz lembrar uma música dos Titãs, chamada Marvin. A música aborda o triste fim de um pai de família, que antes de morrer diz ao filho: “Marvin, agora é só você, eu fiz o meu melhor, e o seu destino eu sei de cor... Marvin, agora é pra valer, chorar só vai lhe fazer sofrer...”
Para que eu não seja compreendido como um herege ou um pessimista, o livro do Eclesiastes pode me ajudar: “Vi as lágrimas dos oprimidos, mas não há quem os console; o poder está do lado dos seus opressores, e não há quem os console.” ( Ec 4:1); “ Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos.”( Ec. 9:11)
Talvez uma pergunta passe na cabeça de muitos. Como fazer para mudar isso? Quais os passos necessários? Eu diria que não há passos, pois o que a vida nos ensina é exatamente o contrário. A vida é avessa a fórmulas lógicas e cartesianas, a ‘receitas’ de auto-ajuda, a qualquer triunfalismo evangélico. Vida é apenas vida! “Para contar os dias, basta um dia ao homem para conhecer toda a felicidade.” (Dostoievski). Para viver bem, é preciso saber viver. Ter vida plena em Jesus não é viver sem problemas ou nunca ter crises, mas é aprender a amar a vida como ela é e perceber na condição humana, com o trágico e o belo, a Imagem de Deus. Somente nessa percepção é que nos tornamos mais humanos. “ ...se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto.” ( Jo 12:24)
Creio que seria um bom começo...
Claudinei Fernandes
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Um Pouco de Leveza
Há alguns dias atrás fui “intimado” pelo médico a emagrecer. O exame que fiz acusou uma alteração no fígado (excesso de gordura), o que me “obriga” a perder por volta de vinte quilos. Ao ouvir o diagnóstico, pensei no ‘peso’ das suas palavras que imediatamente causou-me um ‘peso’ no coração e na consciência. Ao mesmo tempo comecei a pensar como deixamos a vida ‘pesada’, não somente pelo excesso de ‘peso’ do corpo, mas pelo ‘peso’ que lançamos sobre ela (vida). Não pude deixar de refletir o quanto é necessário um pouco de leveza!
Diariamente busco meus filhos na escola. Primeiro pego o Júnior em uma escola de educação infantil e em seguida busco o Abner em outra escola, de ensino fundamental. Ambas são escolas municipais. Os assuntos com eles são diversificados, mas quase sempre se repetem: o gol sofrido na hora do recreio, as brincadeiras, as novas descobertas em sala de aula, uma fofoquinha sobre os amigos, o humor dos professores etc.
É muito interessante observar todas as crianças na saída. Eu não sei se a alegria é a mesma ao entrar e iniciar a aula, mas é bem perceptível e até estampado nos olhinhos infantis a alegria de voltar para casa. Há aquelas crianças, cuja situação social é bem precária, que usam chinelos de dedo e roupas bem ‘batidas’, mas apesar disso, não sorriem menos que as outras. Há também aquelas que são recebidas pelo pai ou pela mãe logo ao sair pelo portão. Nos poucos momentos que observo as crianças na saída da escola, sinto o quanto é bom participar deles. Parece que a vida fica mais leve com as crianças, talvez porque elas ‘têm cheiro de Deus’.
Assim também é na igreja. Como as crianças alegram o ambiente! É claro que às vezes são bem agitadas, mas é lindo vê-las se desenvolvendo. Com criança a gente conversa muita coisa, de dinossauros a oração. Outro dia, brincando de futebol com o Juninho, ele tomava gol de propósito só para comemorar comigo. O pior é que ele fazia questão de perder para comemorar minha vitória. Que coisa fantástica! Quem gosta de perder para comemorar com seu “adversário”? Somente quem prefere a alegria do abraço ao invés do sabor da conquista. Atitudes assim são capazes de ‘tornar leve’ um mundo tão competitivo e de sentimentos religiosos tão triunfalistas. Talvez o que todos precisamos é um pouco de leveza. Que tal aprendermos com as crianças?!
Claudinei Fernandes
Diariamente busco meus filhos na escola. Primeiro pego o Júnior em uma escola de educação infantil e em seguida busco o Abner em outra escola, de ensino fundamental. Ambas são escolas municipais. Os assuntos com eles são diversificados, mas quase sempre se repetem: o gol sofrido na hora do recreio, as brincadeiras, as novas descobertas em sala de aula, uma fofoquinha sobre os amigos, o humor dos professores etc.
É muito interessante observar todas as crianças na saída. Eu não sei se a alegria é a mesma ao entrar e iniciar a aula, mas é bem perceptível e até estampado nos olhinhos infantis a alegria de voltar para casa. Há aquelas crianças, cuja situação social é bem precária, que usam chinelos de dedo e roupas bem ‘batidas’, mas apesar disso, não sorriem menos que as outras. Há também aquelas que são recebidas pelo pai ou pela mãe logo ao sair pelo portão. Nos poucos momentos que observo as crianças na saída da escola, sinto o quanto é bom participar deles. Parece que a vida fica mais leve com as crianças, talvez porque elas ‘têm cheiro de Deus’.
Assim também é na igreja. Como as crianças alegram o ambiente! É claro que às vezes são bem agitadas, mas é lindo vê-las se desenvolvendo. Com criança a gente conversa muita coisa, de dinossauros a oração. Outro dia, brincando de futebol com o Juninho, ele tomava gol de propósito só para comemorar comigo. O pior é que ele fazia questão de perder para comemorar minha vitória. Que coisa fantástica! Quem gosta de perder para comemorar com seu “adversário”? Somente quem prefere a alegria do abraço ao invés do sabor da conquista. Atitudes assim são capazes de ‘tornar leve’ um mundo tão competitivo e de sentimentos religiosos tão triunfalistas. Talvez o que todos precisamos é um pouco de leveza. Que tal aprendermos com as crianças?!
Claudinei Fernandes
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
“Brasil Muçulmano” ou desencanto do cristianismo?
"Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus." (Fp 2:5)
Um artigo publicado no informativo batista, veículo de comunicação via internet em 10/10/2009, traz o seguinte título: “Brasil muçulmano?” Segundo informações deste artigo, o Brasil tem sido recentemente, talvez pelo seu destaque no cenário mundial, palco de encontros e diálogos de líderes muçulmanos, cujo objetivo é discutir e planejar seu avanço na América do Sul.
Não sou um entendido do Islã, mas sei que ele também tem uma perspectiva de conquista, assim como o cristianismo. Em relação a isso, muito se assemelham. Não sei se é necessário haver uma forte preocupação com o avanço do Islamismo em si no Brasil, mas com certeza é preciso haver uma preocupação com a Igreja. Quem sabe começar analisando se ela (igreja) tem sido realmente aquilo que Jesus propôs. A história mostra que todas as vezes que esse ‘espírito de guerra’ entre essas religiões se manteve, só houve perdas. Ao invés de pensar e analisar de forma apologética (defesa da fé), a Igreja deve pensar simplesmente o que significa ser Igreja e qual seu papel no mundo. A Ênfase de Jesus nos evangelhos sempre foi o amor, compaixão e justiça. Não deveria ser esta a ênfase de todo o cristianismo?
Se o cristianismo (católico, ortodoxo ou protestante) não atender a necessidade das pessoas, elas simplesmente se abrirão para novas perspectivas religiosas. Isso não diz respeito apenas ao islamismo, mas a qualquer religião. A cultura evangélica no Brasil, por exemplo, é anti-católica e em geral fechada a qualquer diálogo ecumênico, o que mostra uma forte insensibilidade antropológica. Tem o hábito de demonizar tudo aquilo que é contrário a sua ‘são doutrina’.
A meu ver a liberdade religiosa no Brasil é muito mais benéfica do que perigosa, mesmo dando abertura a outras religiões. Acredito até que propicie a grande oportunidade de mostrar o quanto o evangelho tem a contribuir de forma significativa em todas as esferas da vida. O quanto é possível construir um humano melhor a partir de ações concretas de amor e compaixão, de compreensão do outro, priorizando pessoas e tratando-as com dignidade. Parafraseando Leonardo Boff: “Só pode haver o ‘Pai nosso’ se houver o ‘Pão nosso’”. Se a forma de viver e entender o evangelho se der a partir de Jesus, de sua vida, de sua humanidade e da forma como ele lidava com as pessoas e as ensinava, nenhuma ação externa se tornará uma ameaça.
Infelizmente a cultura ocidental, profundamente influenciada pelo cristianismo, tem gerado muitas desigualdades sociais. Tem sido a grande portadora de um sistema econômico monstruoso que gera riquezas para poucos e conseqüentemente pobreza e miséria para muitos. Afirma ainda que isso é sinônimo de liberdade. Além deste cenário, há a grande participação na destruição do meio ambiente em nome do progresso (ou da ganância). A conseqüência destes acontecimentos causa o que Max Weber chamou de ‘desencanto’. Apesar de estar se referindo ao final do Séc.XIX e começo do Séc.XX, em relação ao desencanto com a religião e, portanto uma aproximação com o secularismo, não é diferente em nossos dias e em nosso país, só que ao invés do secularismo, a aproximação tem sido com outros horizontes religiosos. Tudo isso acaba gerando um terreno fértil para novas religiões, que se transformam em novas alternativas em meio a tantas desilusões.
Não será - assim como nunca foi - ações do tipo ‘guerra santa’ ao estilo Bush, com um fundamentalismo cristão tão estridente quanto ao do próprio Islamismo que impedirá qualquer “ameaça” religiosa. Não se deve pensar em ‘novas cruzadas’ e nem tampouco em ‘repreender o inimigo’, mas em refletir naquilo que realmente queremos ser enquanto Igreja.
Que Deus tenha misericórdia de nós!
Pr. Claudinei Fernandes
Um artigo publicado no informativo batista, veículo de comunicação via internet em 10/10/2009, traz o seguinte título: “Brasil muçulmano?” Segundo informações deste artigo, o Brasil tem sido recentemente, talvez pelo seu destaque no cenário mundial, palco de encontros e diálogos de líderes muçulmanos, cujo objetivo é discutir e planejar seu avanço na América do Sul.
Não sou um entendido do Islã, mas sei que ele também tem uma perspectiva de conquista, assim como o cristianismo. Em relação a isso, muito se assemelham. Não sei se é necessário haver uma forte preocupação com o avanço do Islamismo em si no Brasil, mas com certeza é preciso haver uma preocupação com a Igreja. Quem sabe começar analisando se ela (igreja) tem sido realmente aquilo que Jesus propôs. A história mostra que todas as vezes que esse ‘espírito de guerra’ entre essas religiões se manteve, só houve perdas. Ao invés de pensar e analisar de forma apologética (defesa da fé), a Igreja deve pensar simplesmente o que significa ser Igreja e qual seu papel no mundo. A Ênfase de Jesus nos evangelhos sempre foi o amor, compaixão e justiça. Não deveria ser esta a ênfase de todo o cristianismo?
Se o cristianismo (católico, ortodoxo ou protestante) não atender a necessidade das pessoas, elas simplesmente se abrirão para novas perspectivas religiosas. Isso não diz respeito apenas ao islamismo, mas a qualquer religião. A cultura evangélica no Brasil, por exemplo, é anti-católica e em geral fechada a qualquer diálogo ecumênico, o que mostra uma forte insensibilidade antropológica. Tem o hábito de demonizar tudo aquilo que é contrário a sua ‘são doutrina’.
A meu ver a liberdade religiosa no Brasil é muito mais benéfica do que perigosa, mesmo dando abertura a outras religiões. Acredito até que propicie a grande oportunidade de mostrar o quanto o evangelho tem a contribuir de forma significativa em todas as esferas da vida. O quanto é possível construir um humano melhor a partir de ações concretas de amor e compaixão, de compreensão do outro, priorizando pessoas e tratando-as com dignidade. Parafraseando Leonardo Boff: “Só pode haver o ‘Pai nosso’ se houver o ‘Pão nosso’”. Se a forma de viver e entender o evangelho se der a partir de Jesus, de sua vida, de sua humanidade e da forma como ele lidava com as pessoas e as ensinava, nenhuma ação externa se tornará uma ameaça.
Infelizmente a cultura ocidental, profundamente influenciada pelo cristianismo, tem gerado muitas desigualdades sociais. Tem sido a grande portadora de um sistema econômico monstruoso que gera riquezas para poucos e conseqüentemente pobreza e miséria para muitos. Afirma ainda que isso é sinônimo de liberdade. Além deste cenário, há a grande participação na destruição do meio ambiente em nome do progresso (ou da ganância). A conseqüência destes acontecimentos causa o que Max Weber chamou de ‘desencanto’. Apesar de estar se referindo ao final do Séc.XIX e começo do Séc.XX, em relação ao desencanto com a religião e, portanto uma aproximação com o secularismo, não é diferente em nossos dias e em nosso país, só que ao invés do secularismo, a aproximação tem sido com outros horizontes religiosos. Tudo isso acaba gerando um terreno fértil para novas religiões, que se transformam em novas alternativas em meio a tantas desilusões.
Não será - assim como nunca foi - ações do tipo ‘guerra santa’ ao estilo Bush, com um fundamentalismo cristão tão estridente quanto ao do próprio Islamismo que impedirá qualquer “ameaça” religiosa. Não se deve pensar em ‘novas cruzadas’ e nem tampouco em ‘repreender o inimigo’, mas em refletir naquilo que realmente queremos ser enquanto Igreja.
Que Deus tenha misericórdia de nós!
Pr. Claudinei Fernandes
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Um Grito Hermenêutico: O Grande Desafio Pastoral de Nossos Dias.
...mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. ( Mt 23:23b)
Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo. (Rm 14:17)
Estes dois textos retratam o pensamento teológico da Comunidade de Mateus e de Paulo. Ambos apontam elementos concretos na construção de suas ideias. Mateus descreve o assertivo discurso de Jesus dirigido aos fariseus, no qual apresenta os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. A linguagem teológica dessa comunidade é construída a partir da interpretação da Lei, isto é, da interpretação de Jesus ou da compreensão daquela comunidade sobre Jesus em relação à Lei. “Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir.” (Mt 5:17).
Paulo, na epístola aos Romanos, está lidando com um conflito no qual também envolve a interpretação da Lei. Está ensinando àquela comunidade que o Reino de Deus não consiste em comida (alimentos permitidos ou não permitidos), nem em observar ou não supostos dias sagrados. Diante desse emaranhado de costumes e tradições judaicas, tenta mostrar que não há relação entre essas tradições e o Reino de Deus, pelo contrário, destaca que o Reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo.
Os dois momentos refletem a grande distância que havia entre essas respectivas concepções da Lei em relação aos preceitos mais importantes e entre o Reino de Deus. É sempre mais fácil apelar para o rito e a forma, culto e liturgia, que são muito mais subjetivos e abstratos do que para ações concretas e humanas de serviço. Mateus parece evidenciar de forma externa, ou seja, ações que tenha o outro como alvo. Por isso, justiça, misericórdia e fidelidade. Paulo, entretanto, parece ter uma ênfase muito mais interna, uma transformação para dentro, onde cada pessoa experimenta de forma pessoal justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Essas esferas se dão tanto no público quanto no privado (coletivo e individual).
Nossa forma de pensar Igreja ainda se distancia dessas prerrogativas de Reino de Deus. É possível perceber isso em todos os seguimentos evangélicos, sejam eles: históricos, pentecostais e neopentecostais. Justiça, misericórdia, fidelidade ou justiça, paz e alegria no Espírito Santo foram trocadas por programações eclesiásticas e denominacionais, campanhas, shows, mercado, comércio e mídia. Não dá para comparar esses textos bíblicos com a atual forma de interpretação de Igreja e até mesmo de Reino de Deus.
De um lado há o excessivo apelo à prosperidade e cura pelos neopentecostais. Vale mencionar o nascimento constante de possíveis “impérios” religiosos que concorrem entre si e têm um forte poder de Marketing. O carisma de líderes que conseguem sem o menor pudor hermenêutico convencer e agregar pessoas se fazendo ‘ungidos’ inquestionáveis de Deus. De outro lado há o pragmatismo eclesiástico que reduz essa perspectiva de Reino de Deus em campanhas evangelísticas e declarações públicas (fundamentalistas) de doutrinas, onde uma pessoa simplesmente atende a um apelo e se torna um “crente”. Aprende a orar, ler a Bíblia, ir ao culto dominicalmente, contribuir com missões e é claro, ser dizimista. Não quero com isto comparar um lado com o outro, apenas apontar ênfases, que certas ou erradas, merecem destaque.
Será isso que os textos mencionados estão se referindo? Será que nossa teologia de missões está sendo pensada sobre um viés teológico concreto e humano? Será que nosso discurso realmente é bíblico?
Não tenho a intenção de desmerecer o esforço e a boa intenção de ninguém, apenas convidar para uma reflexão hermenêutica. Não seria o momento de buscarmos uma teologia bíblica mais madura e relevante? Talvez esse seja o grande desafio pastoral de nossos dias.
Pr. Claudinei Fernandes
Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo. (Rm 14:17)
Estes dois textos retratam o pensamento teológico da Comunidade de Mateus e de Paulo. Ambos apontam elementos concretos na construção de suas ideias. Mateus descreve o assertivo discurso de Jesus dirigido aos fariseus, no qual apresenta os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. A linguagem teológica dessa comunidade é construída a partir da interpretação da Lei, isto é, da interpretação de Jesus ou da compreensão daquela comunidade sobre Jesus em relação à Lei. “Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir.” (Mt 5:17).
Paulo, na epístola aos Romanos, está lidando com um conflito no qual também envolve a interpretação da Lei. Está ensinando àquela comunidade que o Reino de Deus não consiste em comida (alimentos permitidos ou não permitidos), nem em observar ou não supostos dias sagrados. Diante desse emaranhado de costumes e tradições judaicas, tenta mostrar que não há relação entre essas tradições e o Reino de Deus, pelo contrário, destaca que o Reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo.
Os dois momentos refletem a grande distância que havia entre essas respectivas concepções da Lei em relação aos preceitos mais importantes e entre o Reino de Deus. É sempre mais fácil apelar para o rito e a forma, culto e liturgia, que são muito mais subjetivos e abstratos do que para ações concretas e humanas de serviço. Mateus parece evidenciar de forma externa, ou seja, ações que tenha o outro como alvo. Por isso, justiça, misericórdia e fidelidade. Paulo, entretanto, parece ter uma ênfase muito mais interna, uma transformação para dentro, onde cada pessoa experimenta de forma pessoal justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Essas esferas se dão tanto no público quanto no privado (coletivo e individual).
Nossa forma de pensar Igreja ainda se distancia dessas prerrogativas de Reino de Deus. É possível perceber isso em todos os seguimentos evangélicos, sejam eles: históricos, pentecostais e neopentecostais. Justiça, misericórdia, fidelidade ou justiça, paz e alegria no Espírito Santo foram trocadas por programações eclesiásticas e denominacionais, campanhas, shows, mercado, comércio e mídia. Não dá para comparar esses textos bíblicos com a atual forma de interpretação de Igreja e até mesmo de Reino de Deus.
De um lado há o excessivo apelo à prosperidade e cura pelos neopentecostais. Vale mencionar o nascimento constante de possíveis “impérios” religiosos que concorrem entre si e têm um forte poder de Marketing. O carisma de líderes que conseguem sem o menor pudor hermenêutico convencer e agregar pessoas se fazendo ‘ungidos’ inquestionáveis de Deus. De outro lado há o pragmatismo eclesiástico que reduz essa perspectiva de Reino de Deus em campanhas evangelísticas e declarações públicas (fundamentalistas) de doutrinas, onde uma pessoa simplesmente atende a um apelo e se torna um “crente”. Aprende a orar, ler a Bíblia, ir ao culto dominicalmente, contribuir com missões e é claro, ser dizimista. Não quero com isto comparar um lado com o outro, apenas apontar ênfases, que certas ou erradas, merecem destaque.
Será isso que os textos mencionados estão se referindo? Será que nossa teologia de missões está sendo pensada sobre um viés teológico concreto e humano? Será que nosso discurso realmente é bíblico?
Não tenho a intenção de desmerecer o esforço e a boa intenção de ninguém, apenas convidar para uma reflexão hermenêutica. Não seria o momento de buscarmos uma teologia bíblica mais madura e relevante? Talvez esse seja o grande desafio pastoral de nossos dias.
Pr. Claudinei Fernandes
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